Antes de se tornar sacerdote, Reonaldo Pereira da Cruz era enfermeiro no Hospital São Vicente de Paula, em Pitanga. Em outubro de 1983 participou do atendimento a um sacerdote baleado. As conversas entre o enfermeiro e o paciente marcariam para sempre sua história.

Há acontecimentos que, vistos no momento em que ocorrem, parecem pertencer apenas àquele instante. Somente muitos anos depois é possível perceber como eles atravessaram outras histórias e ajudaram a mudar o rumo de outras vidas. Foi assim com um episódio ocorrido em 25 de outubro de 1983, na região de Pitanga, envolvendo o então padre João Braz de Aviz e o jovem enfermeiro Reonaldo Pereira da Cruz.
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Naquele dia o padre João Braz de Aviz seguia para Palmital onde celebraria na Paróquia Imaculada Conceição. Próximo ao Rio da Prata, cerca de 20 quilômetros antes de Pitanga, acabou atingido por disparos de arma de fogo durante uma ocorrência violenta. Ferido, permaneceu por um período no local até receber socorro e ser levado para Pitanga.
Décadas mais tarde, João Braz de Aviz seria conhecido em todo o mundo católico: tornou-se bispo, arcebispo de Brasília e cardeal da Igreja. Naquele outubro de 1983, porém, era um sacerdote ferido que chegava ao Hospital São Vicente de Paula, em Pitanga. E foi ali que sua história se encontrou com a de Reonaldo.
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O enfermeiro que recebeu o padre ferido
Reonaldo trabalhava como enfermeiro no Hospital São Vicente de Paula. Participou do atendimento ao sacerdote e, posteriormente, foi designado para acompanhá-lo nos cuidados necessários.
A gravidade do episódio ficou registrada também na memória do próprio João Braz de Aviz. Em relato publicado posteriormente no Boletim Diocesano, ele recordou o período em que permaneceu ferido aguardando auxílio: “Fiquei duas horas caído no chão sem nenhum socorro. Rezei muito.”
O atendimento iniciado em Pitanga seria seguido pela transferência para Ponta Grossa, onde o sacerdote continuou o tratamento. Segundo a recordação de Reonaldo, foram retirados do corpo de João Braz de Aviz 116 chumbos.
O episódio também aparece no Livro Tombo da Paróquia Imaculada Conceição, de Palmital. Em anotação feita pelo padre Carlos Mayer, em 11 de novembro de 1983, ficou registrado que o padre João havia sido baleado no dia 25 de outubro, no Rio da Prata, quando seguia para a região de Palmital. O sacerdote registrou ainda que o visitaria posteriormente no hospital, em Ponta Grossa, e mencionou que até um dos olhos havia sido atingido por um dos chumbos.
O documento paroquial, escrito poucos dias depois dos acontecimentos, preservou para a história local aquilo que Reonaldo guardaria na memória.
Conversas que foram além do tratamento
Enquanto cuidava do sacerdote ferido, o jovem enfermeiro teve a oportunidade de conversar com ele. E aquelas conversas começaram a ultrapassar os limites de um quarto de hospital.
João Braz de Aviz quis saber sobre a vida daquele enfermeiro que o acompanhava, sobre sua fé e seus projetos. Em determinado momento, perguntou se Reonaldo já havia pensado na possibilidade de ser padre.
A pergunta encontrou um terreno que já vinha sendo preparado. Reonaldo não começou a pensar na vocação sacerdotal por causa daquele encontro. Antes disso, religiosas que trabalhavam no Hospital São Vicente de Paula já percebiam nele sinais de uma possível vocação. O padre Cassiano Waldner também o incentivava a considerar uma experiência no seminário.
Por isso, é importante compreender aquele encontro na medida exata de sua importância: João Braz de Aviz não foi a origem da vocação de Reonaldo, mas seu testemunho, naquele momento particularmente difícil, ajudou a fortalecer algo que já estava crescendo no coração do jovem enfermeiro.
Ao recordar a experiência, padre Reonaldo resume o que aquele contato representou para sua decisão: deu-lhe “mais convicção e mais força” para fazer a experiência no seminário.
A história de um homem que cuidava de um sacerdote ferido começava, assim, a se entrelaçar com a história do sacerdote que ele próprio se tornaria.
Do hospital para o seminário

O que aconteceu depois não pode ser reduzido a uma única conversa ou a um único acontecimento. A vocação é resultado de um caminho de discernimento, oração, acompanhamento e resposta pessoal. Mas o encontro de 1983 passou a integrar esse caminho.
Reonaldo deixou a enfermagem para fazer a experiência vocacional e, posteriormente, tornou-se sacerdote. Seu ministério passou a fazer parte da história da Diocese de Guarapuava.
Os caminhos dos dois não permaneceriam separados para sempre.
Anos depois, já sacerdote, Reonaldo voltaria a encontrar João Braz de Aviz, então bispo de Ponta Grossa. O reencontro carregava um significado especial. Já não estavam diante um do outro o paciente ferido e o enfermeiro que participara de seus cuidados. Agora eram dois sacerdotes.
Aquele jovem que estivera ao lado de João Braz de Aviz no hospital havia seguido justamente o caminho sobre o qual conversaram em Pitanga.
Uma história dentro da história da Diocese
Quarenta e três anos depois, o episódio ganha uma dimensão particular ao ser recuperado durante as comemorações dos 60 anos da Diocese de Guarapuava.
Documentos ajudam a reconstruir datas e acontecimentos. O Livro Tombo preservou o registro feito em 1983. O Boletim Diocesano guardou a memória do próprio João Braz de Aviz. Outros registros posteriormente retomaram o atentado. Mas o testemunho de padre Reonaldo acrescenta à documentação algo que somente a memória de quem viveu aquele momento poderia revelar.
É justamente aí que duas histórias aparentemente distintas se encontram.
Uma é a história de João Braz de Aviz, sacerdote atingido por disparos quando seguia para cumprir sua missão pastoral e que, muitos anos depois se tornaria cardeal da Igreja. A outra é a de Reonaldo Pereira da Cruz, enfermeiro que ajudou a cuidar daquele padre e que já carregava inquietações sobre sua própria vocação.
Naquele quarto de hospital, em 1983, nenhum dos dois poderia conhecer inteiramente o caminho que ainda percorreriam. Um chegaria ao cardinalato, o outro deixaria a enfermagem e se tornaria sacerdote da Diocese de Guarapuava.

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