
Entre as iniciativas sociais que marcaram a história da Diocese de Guarapuava está a criação do Núcleo Habitacional João Paulo II, no Bairro Morro Alto. Surgido no início da década de 1980, o projeto levou moradia digna a dezenas de famílias, promoveu qualificação profissional e se tornou um exemplo concreto do compromisso da Igreja com a promoção humana e a transformação social.
A obra nasceu a partir da preocupação da Diocese de Guarapuava e das Irmãs da Caridade Social com a realidade vivida por famílias que residiam em áreas pobres da cidade. Conforme registra a historiadora Gracita Gruber Marcondes no livro A Igreja em Guarapuava, a Diocese adquiriu o terreno onde seria implantado o conjunto habitacional e assumiu a responsabilidade pela execução da obra. A iniciativa contou com a liderança da Irmã Maria Mayr, da Congregação da Caridade Social, que mobilizou benfeitores, articulou parcerias e acompanhou de perto o desenvolvimento do projeto.

Em reportagem publicada no Boletim Diocesano de setembro de 1980, o empreendimento foi descrito como um verdadeiro “milagre” social. O texto relata que a sensibilidade das religiosas diante da situação das famílias mais pobres motivou a busca de soluções concretas para oferecer melhores condições de vida à população. A obra foi desenvolvida por meio de uma parceria entre a Diocese de Guarapuava e a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar).

Inicialmente conhecido como Núcleo São Luís, por estar localizado próximo à capela dedicada ao santo, o projeto previa a construção de 90 casas populares destinadas a famílias de baixa renda, especialmente aquelas que viviam em condições precárias. Além das moradias, o planejamento contemplava a implantação de um centro social, creche, escola e posto de saúde, demonstrando uma preocupação integral com o desenvolvimento da comunidade.
Um dos diferenciais da iniciativa foi a adoção do sistema de mutirão. As próprias famílias beneficiadas participavam da construção de suas futuras residências. Sob a orientação da Irmã Maria Mayr e de um jovem pedreiro-mestre, os moradores trabalhavam diretamente na obra, reduzindo custos e fortalecendo o sentimento de pertencimento e responsabilidade pela nova comunidade que surgia.
O projeto também tinha uma forte dimensão educativa e profissionalizante. Em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), foram oferecidos cursos de pedreiro, eletricista, encanador, azulejista e serralheiro. Muitos participantes aprenderam uma profissão enquanto construíam suas próprias casas.
Em artigo publicado no Boletim Diocesano de abril de 1981, Dom Frederico Helmel destacou justamente esse aspecto da iniciativa. Ao apresentar as atividades desenvolvidas pelas Irmãs da Caridade Social, o bispo ressaltou que a construção das moradias beneficiava principalmente famílias de baixa renda oriundas das áreas de favela e que o sistema de mutirão permitia não apenas a construção das casas, mas também a formação profissional dos participantes. Segundo Dom Frederico, diversos moradores frequentavam os cursos do Senai que funcionavam junto à própria obra, adquirindo conhecimentos que poderiam lhes garantir uma profissão e melhores condições de sustento.

A mobilização envolveu toda a comunidade. Enquanto os pais trabalhavam na construção das casas, muitas mães preparavam as refeições em uma cozinha improvisada no próprio canteiro de obras. Os alimentos eram obtidos por meio de doações da população e de campanhas organizadas pelo padre Salvador Renna. O Lions Club também colaborava com a alimentação dos trabalhadores, enquanto comerciantes, empresários e voluntários contribuíam de diferentes formas para o andamento da iniciativa.
A Prefeitura Municipal participou com a terraplanagem do terreno, abertura das ruas e implantação do saneamento básico. Já a Cohapar forneceu materiais e suporte técnico para a execução das moradias.
Outro aspecto marcante foi a participação dos seminaristas da Diocese de Guarapuava. Registros do Boletim Diocesano citam os seminaristas Altair Buss, Geraldo Bloemer, Joaquim da Rocha, José Padilha e Silvio Arruda, que trabalhavam diariamente no mutirão, colaborando diretamente com as famílias beneficiadas e testemunhando, na prática, a dimensão social da missão da Igreja.

Para a Irmã Maria Mayr, o maior resultado da obra não estava apenas nas casas construídas, mas na transformação das pessoas. Em depoimento publicado pelo Boletim Diocesano, ela afirmava que “o melhor do trabalho do mutirão é a promoção humana dos operários”, destacando que muitos participantes passaram a acreditar em suas próprias capacidades ao perceberem que eram capazes de aprender uma profissão e construir um futuro melhor para suas famílias.

Os resultados começaram a aparecer rapidamente. Em 25 de novembro de 1980, as primeiras 34 famílias receberam as chaves de suas novas residências durante uma cerimônia que contou com a presença de autoridades civis e religiosas. Entre os participantes estava o então presidente da Cohapar, José Roberto Pegoraro. Na ocasião, os moradores escolheram o nome João Paulo II para o conjunto habitacional, em homenagem ao Papa São João Paulo II, que havia visitado o Brasil naquele mesmo ano.
Em menos de oito meses, o projeto já apresentava resultados concretos e se consolidava como uma das mais importantes iniciativas sociais da história da Diocese de Guarapuava. Ao todo, foram construídas 96 residências, transformando a realidade de dezenas de famílias e oferecendo novas oportunidades de vida para pessoas que antes enfrentavam condições extremamente difíceis.
Mais de quatro décadas depois, o Núcleo Habitacional João Paulo II permanece como um dos mais belos testemunhos da ação evangelizadora unida à promoção humana. A obra demonstrou que a fé, quando vivida de forma concreta, é capaz de gerar transformação social, dignidade e esperança para aqueles que mais necessitam.
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