
Mais de dois meses após o tornado que devastou o município de Rio Bonito do Iguaçu, na Diocese de Guarapuava, a atuação da Igreja Católica segue firme, constante e profundamente enraizada na vida do povo. Desde a noite da catástrofe, em 7 de novembro, até os dias atuais, a Igreja não deixou de estar presente, oferecendo apoio material, psicológico e espiritual às famílias atingidas.
Naquela noite, na Paróquia Santo Antônio de Pádua, fiéis aguardavam a celebração que seria presidida pelo bispo diocesano Dom Amilton Manoel da Silva, com a Crisma de jovens e adolescentes. Surpreendidos pelo tornado, os fiéis encontraram abrigo no interior da igreja. A partir daquele momento, o templo passou a ser, não apenas um espaço de oração, mas um verdadeiro ponto de esperança e socorro para a população.
Segundo Flávia Lira, membro da Comissão Paroquial para Assuntos Econômicos (COPAE), o trabalho começou imediatamente. “O trabalho, na verdade, começou já no mesmo dia, porque desde o ocorrido, desde o tornado, a igreja, o nosso espaço, ela já se tornou referência para as pessoas virem procurar algum tipo de ajuda, inclusive vir procurar abrigo. A igreja ficou aberta já naquela noite e na noite subsequente, e foi se tornando referência também para a chegada das doações”, relatou. Também a Casa de Líderes no vizinho município de Laranjeiras do Sul se tornou local de acolhida para os desabrigados já naquela noite do tornado.
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Com o pavilhão interditado após os danos estruturais, a paróquia precisou se reorganizar para continuar atendendo às necessidades urgentes. “Algumas coisas tivemos que tirar daqui, o espaço [salão paroquial] não pôde mais ser usado. O que conseguimos ajudar foi cedendo equipamentos da cozinha para montar cozinhas em outros locais. Uma paroquiana levou um fogão para casa dela, outro foi cedido ao sindicato. Vieram também os Homens de Fé, de Guarapuava, que ficaram vários dias fazendo marmitas, especialmente nas primeiras semanas, que foram mais intensas”, explicou Flávia.
A mobilização solidária ultrapassou os limites da diocese. “Chegavam muitos alimentos, produtores traziam, empresas doaram, mercados ajudaram. A gente montou uma tenda aqui na frente da igreja para organizar e distribuir tudo”, contou. Segundo ela, as doações começaram já nos primeiros dias e vieram de várias formas. “Recebemos doações de empresas, de mercados, doações via PIX da paróquia, doações de pessoas físicas, de paróquias vizinhas, de dioceses de todo o Paraná e até de outras regiões do Brasil. Teve paróquia que entrou em contato querendo ajudar na construção de casas”, detalhou.

O trabalho, no entanto, não se limitou à fase emergencial. “Atualmente a paróquia continua ajudando com doações de material de construção, conforme as pessoas vêm pedir. Ajudamos com forro, areia, cimento, conforme a necessidade. Também fazemos a mediação das doações da Cáritas, que agora está se instalando no município. Hoje, concretamente, a paróquia está ajudando na construção de duas casas”, afirmou Flávia, destacando a parceria com uma paróquia de Itapejara PR, que se dispôs a financiar a construção de duas casas para famílias que perderam tudo.

Além do apoio material, o cuidado espiritual foi essencial nos primeiros dias. “Foi algo muito significativo, muito forte. Nos primeiros dias, todo mundo estava muito abalado. A sensação era de estar caminhando em círculos. A parte prática ficava difícil. O que nos sustentou foi a parte espiritual. O Padre Cristian, com suas palavras sempre muito sábias, e vários outros padres que passaram por aqui, como o Padre Sebastião e o Padre Valdecir, estiveram presentes. Antes das obras, vem a fé. A gente precisava estar muito amparado”, testemunhou.
A solidariedade também veio da vizinha Laranjeiras do Sul. “Desde a primeira noite, o pessoal já se mobilizou. Trouxeram sanduíche, salada, pizza, o que tinham de prontidão. A Paróquia Sant’Ana, na pessoa do Padre Sebastião e de outros padres, ajudou financeiramente e com doações. Eles foram, sem dúvida, uma grande referência de apoio”, reconheceu Flávia.
Atualmente, a paróquia atua em conjunto com a Cáritas diocesana, ampliando o alcance do atendimento. “Psicólogos e assistentes sociais estão vindo, fazendo visitas, cadastros e atendimentos psicológicos. As pessoas nos procuram pedindo orientação, querendo saber como acessar esse apoio. A paróquia é referência, então fazemos esse encaminhamento para a Cáritas”, explicou.

O psicólogo Yan Merhet, integrante da equipe da Cáritas diocesana, detalhou o trabalho desenvolvido. “A Cáritas em Rio Bonito do Iguaçu está conduzindo um projeto de assistência às famílias. Inicialmente, fazemos um levantamento detalhado das necessidades de cada família, considerando renda, número de moradores, presença de idosos, crianças, pessoas com necessidades médicas ou deficiências. A partir disso, definimos prioridades”, afirmou.
Segundo Yan, os dados são analisados tecnicamente em Guarapuava, garantindo imparcialidade. “Os recursos podem incluir material de construção, moradias, armários de cozinha, fogões e geladeiras, todos financiados por doações administradas pela Cáritas via diocese.” Ele explicou que o acesso ao projeto ocorre tanto por demanda espontânea quanto por visitas de voluntários. “Em pouco mais de dez dias de trabalho, já cadastramos 46 famílias. Em uma ação especial de Natal, autorizada pelo Dom Amilton, cerca de 27 famílias também foram beneficiadas. Ao todo, estamos atendendo aproximadamente 89 famílias.”
Uma das ações que começam a avançar é a construção de moradias. “Estimamos que a primeira casa fique pronta em cerca de 20 dias. Ela servirá de modelo para a construção de mais nove casas, totalizando dez unidades habitacionais”, revelou Yan, ressaltando a importância da parceria local. “A paróquia é nosso centro operacional. Tudo passa pelo Padre Cristian. Essa parceria é fundamental para que o trabalho aconteça.”

Entre as famílias beneficiadas está Dona Élia Ferreira da Fonseca, que teve a casa completamente destruída e receberá a primeira das novas moradias. Sua nora, Ivone Soares de Lima, também será contemplada. “A casa da minha sogra está quase pronta, logo começam a fazer a minha. É uma bênção pra mim, uma bênção de Deus”, disse emocionada.
O pároco Padre Cristian reforça que a Igreja segue comprometida com o trabalho junto à comunidade. “Estamos em fase de reconstrução. Desde o início avançamos bastante. Muitas casas já estão cobertas, e agora trabalhamos na reconstrução completa das que foram destruídas desde as fundações. É um processo cuidadoso e gradual, não por falta de ação, mas porque se trata de uma transformação profunda”, afirmou.

Segundo ele, o trabalho não cessou em nenhum momento. “O trabalho começou no dia do tornado e segue há mais de dois meses. A mobilização inicial foi intensa, mas a Igreja permanece firme. A Igreja somos nós, o povo de Rio Bonito. A reconstrução agora é nossa responsabilidade, em colaboração com o poder público e as lideranças civis. Vai levar tempo, talvez meses ou até um ano, mas as coisas estão acontecendo.”
A Igreja, através da Cáritas, também realizou ações em Guarapuava, no Assentamento Nova Geração e no Distrito da Palmeirinha.
O trabalho realizado pela Igreja Católica mostra, na prática, que fé e ação caminham juntas. Em meio à dor e à destruição, a Igreja não apenas abriu suas portas, mas colocou recursos, sua organização e sua missão a serviço do povo, reafirmando seu compromisso histórico com a dignidade humana, especialmente nos momentos de maior sofrimento.
Cáritas Regional

Outra frente de trabalho da Igreja em Rio Bonito do Iguaçu está com a Cáritas Brasileira Regional Paraná. Após as necessidades mais básicas, como alimentação e água, sendo supridas pela Defesa Civil e órgãos estatais, a Cáritas direcionou sua força de trabalho a ações de médio prazo para garantir que a dignidade dos moradores seja preservada durante o longo processo de reconstrução.
Em parceria com a Prefeitura de Rio Bonito do Iguaçu e com recursos repassados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), a Cáritas Paraná foi contratada para realizar a cogestão de um alojamento provisório destinado às pessoas que perderam suas casas. Diferente de um abrigo comum, este conta com uma equipe multidisciplinar dedicada exclusivamente ao bem-estar dos moradores.
O contrato prevê atuação contínua enquanto houver necessidade de abrigamento para a população afetada, com renovação de 30 em 30 dias.
Reportagem em áudio:
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Nossa igreja fazendo a diferença em meio as necessidades e as pessoas que buscam por dignidade.